sexta-feira, 7 de agosto de 2009

A mãe


Máximo Gorki


" A fogueira flamejou, tudo tremeu, balançou; as sombras, lambidas pelas chamas, projetaram-se assustadas na floresta; por cima do fogo, surgiu por um instante a cara de Ignati, com as faces inchadas. O braseiro extinguiu-se. No ar pairou um cheiro de fumaça; de novo o silêncio e a bruma apertaram a floresta, como à espreita, à escuta das palavras roucas do doente.

- Mas, para o povo, posso ainda ser útil, como testemunha de um crime... Olhem para mim... Tenho vinte e oito anos e estou morrendo! Há dez anos, levantava nos ombros, sem esforço, até duzentos quilos!... Com uma saúde assim, dizia para comigo, irei facilmente até os setenta anos. Mas vivi dez anos e já não posso mais. Os patrões tiraram-me, roubaram-me quarenta anos de vida, quarenta anos!

- Aqui está, a canção dele! - disse surdamente Ribine.

As chamas elevaram-se de novo, mas agora mais fortes, mais claras e as sombras fugiram outra vez para a floresta; refluíram depois para o fogo e tremeram em volta do braseiro numa dança silenciosa e hostil. Os ramos úmidos estalavam e gemiam. A folhagem das árvores ciciava, sussurrava, alarmada com uma baforada de ar quente. Alegre e vivas, as línguas de fogo brincavam e se abraçavam, amarelas e vermelhas, cresciam semeando fagulhas, voavam folhas queimadas e no céu as estrelas sorriam para as centelhas, parecendo chamar por elas...

- Não é uma canção minha: milhares de pessoas cantam-na, sem compreenderem que a infelicidade delas é uma salutar lição para o povo. Quantos seres esgotados ou mutilados pelo trabalho não morrem de fome..."


"A voz um pouco rouca de Sofia soava com doçura, uma voz que parecia vir do passado, que despertava esperanças, inspirava confiança; e aqueles homens escutavam em silêncio a história dos seus irmãos espirituais e olhavam o rosto magro e pálido da mulher. Uma luz cada vez mais viva iluminava a causa sagrada de todos os povos do mundo: a luta feroz pela liberdade. Cada um deles reencontrava as suas aspirações, os seus pensamentos, num passado longínquo, coberto por uma cortina escura e esangüentada, entre outros povos, desconhecidos; cada um deles unia-se de coração e espírito ao mundo, vislumbrando neste, amigos que, já há muito tempo, unânimes e firmes nos seus pensamentos, haviam decidido instaurar a verdade na Terra, santificado a sua decisão com incalculáveis sofrimentos, que tinham oferecido rios de sangue pelo triunfo de uma nova vida, feliz e radiosa. O sentimento de parentesco espiritual com eles desabrochava e crescia; era um coração novo que nascia da Terra, desejoso de tudo conhecer, de tudo congregar em si.

- Virá um dia em que os trabalhadores de todos os países erguerão a cabeça e dirão com firmeza: basta! Não aceitamos mais esta vida! - disse Sofia cheia de fé. - Então, ruirá o ilusório poder daqueles que são fortes apenas na sua ganância, a terra abrir-se-á sob os seus pés e eles não terão mais em que se apoiar..."


"- Nós próprios nos tornamos inconscientemente ferozes nesta vida feroz."

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