sábado, 28 de fevereiro de 2009

O tempo - Substância do Capitalismo

"Para que a disciplina da empresa continue a pautar os comportamentos fora da empresa é necessário que o ócio dos trabalhadores, bem como as 24 horas dos desempregados, não sejam tempo livre, mas tempo controlado. É necessário que os pensamento não voem, mas sigam trilhas. Este resultado não se obtém apenas através da concentração das indústrias cinematográfica e televisiva num escasso número de mãos, com a conseqüente futilidade de conteúdo das diversões.
Hoje, não é apenas nos níveis econômico e ideológico que os capitalistas controlam os ócios, mas ainda no nível diretamente repressivo. Dentro das empresas, a eletrônica permitiu a fusão do processo de fiscalização com o de trabalho. Esta conjugação, inédita na história da humanidade, ampliou-se à sociedade em geral quando os bancos e as lojas começaram a sujeitar os clientes a formas de vigilância que até então haviam reservado para os assalariados. Depois, o fato de os computadores e outros instrumentos eletrônicos servirem tanto de meio de trabalho como de meio de divertimento permitiu a fiscalização automática dos ócios. Desde as virtuais às palpáveis, não existe hoje nenhuma modalidade urbana de diversão que não seja fiscalizada. Entre o mais intenso dos gestos de trabalho e o mais espreguiçado dos gestos de repouso existe um continnum preenchido pela vigilância eletrônica.
E como as firmas de segurança particulares ultrapassam em verbas e pessoal as polícias oficiais, e como são as próprias empresas quem registra, armazena e seleciona o vastíssimo rastro de informações que cada um de nós deixa ao longo dos nossos lazeres, cabe a elas, e não ao aparelho tradicional de Estado, formar a infra-estrutura repressiva.
Uma tradição muito difundida na extrema-esquerda considera a consciência política passível de ser obtida na passagem da luta contra os patrões para a luta contra os governantes. Mas será possível, nas condições atuais sustentar que o Estado clássico, enquanto órgão de decisões, prevalece sobre as empresas, enquanto instituições dotadas de soberania? Desde a década de 1960 que as movimentações dos trabalhadores ocorridas fora dos quadros sindicais e partidários vêm entendendo que o Estado clássico não é mais o alvo supremo das lutas e considerando a questão da democracia uma necessidade da estrutura interna das próprias organizações de luta. Sem a transformação das relações sociais de trabalho, de modo a pôr fim ao totalitarismo empresarial, é ilusório pretender que a liberdade possa vigorar em qualquer outro domínio."
João Bernardo

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