terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Não se mate

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê,
pra quê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém, ninguém sabe nem saberá.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Tenho arrumado os livros.
Tiro de uma prateleira sem ordem e coloco em outra
com ordem. Ficam espaços vazios.
Hora em hora.
Não tenho te dito nada.
Ligo para os outros.
O que eu poderia dizer é perigoso: certeza (assim como
eu disse: daqui dez anos estarei de volta) de que nos
reencontraremos, cedo ou tarde.
Mas não sei mais quando.

Cedo ou tarde reencontro - o ponto de partida.

Ana Cristina Cesar

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Cem anos de solidão

"- Porra! - gritou.
Amaranta, que começava a colocar a roupa no baú, pensou que ela tinha sido picada por um escorpião.
- Onde está? - perguntou alarmada.
- O quê?
- O animal! - esclareceu Amaranta.
Úrsula pôs o dedo no coração.
- Aqui. - disse."


Gabriel Garcia Máquez

Cem anos de solidão

"Aturdido por duas saudades colocadas de frente uma para outra como dois espelhos, perdeu o seu maravilhoso sentido de irrealidade até que terminou por recomendar a todos que fosse embora de Macondo, que esquecessem tudo o que ele ensinara do mundo e do coração humano, que cagassem para Horácio e que em qualquer lugar em que estivessem se lembrassem sempre de que o passado era mentira, que a memória não tinha caminhos de regresso, que toda primavera antiga era irrecuperável e que o amor mais desatinado e tenaz não passava de uma verdade efêmera."

Gabriel Garcia Márquez

sábado, 6 de dezembro de 2008

me ensina a amar
sem ser amado
a sentir que a brisa
é minha única companheira

que é ela quem marca
em minha pele
a presença de teus beijos
ausentes
de teus sussurros
mudos
de teu olhar
invisível

que o amor é isso
senão
abstração
imaginação
condenação

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Por uma nova perspectiva

O sol que ilumina as paredes das casas vizinhas,
eu posso ver pela janela, é um chamamento.

Me faz lembrar que um dia ele nascerá sob a cabeça de homens libertados,
homens humanos.

Este sol, que hoje ilumina as amarras da humanidade
mas não a faz enxergar o que de fato a consome,
nascerá outrora,
anunciando que já podemos começar a história de nossa emancipação.

Este sol, que ilumina minha mesa e meus papéis,
já me faz lembrar que é possível,
e que isso não é só uma esperança apaixonada,
é a História.