sábado, 15 de agosto de 2009

Machado de Assis



"Felizes aqueles cujos dias correm com a insipidez de uma crônica vulgar. Geralmente os dramas da vida humana são mais toleráveis no papel que na realidade."

Fotografado por Marc Ferrez, 1890.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

A mãe


Máximo Gorki


" A fogueira flamejou, tudo tremeu, balançou; as sombras, lambidas pelas chamas, projetaram-se assustadas na floresta; por cima do fogo, surgiu por um instante a cara de Ignati, com as faces inchadas. O braseiro extinguiu-se. No ar pairou um cheiro de fumaça; de novo o silêncio e a bruma apertaram a floresta, como à espreita, à escuta das palavras roucas do doente.

- Mas, para o povo, posso ainda ser útil, como testemunha de um crime... Olhem para mim... Tenho vinte e oito anos e estou morrendo! Há dez anos, levantava nos ombros, sem esforço, até duzentos quilos!... Com uma saúde assim, dizia para comigo, irei facilmente até os setenta anos. Mas vivi dez anos e já não posso mais. Os patrões tiraram-me, roubaram-me quarenta anos de vida, quarenta anos!

- Aqui está, a canção dele! - disse surdamente Ribine.

As chamas elevaram-se de novo, mas agora mais fortes, mais claras e as sombras fugiram outra vez para a floresta; refluíram depois para o fogo e tremeram em volta do braseiro numa dança silenciosa e hostil. Os ramos úmidos estalavam e gemiam. A folhagem das árvores ciciava, sussurrava, alarmada com uma baforada de ar quente. Alegre e vivas, as línguas de fogo brincavam e se abraçavam, amarelas e vermelhas, cresciam semeando fagulhas, voavam folhas queimadas e no céu as estrelas sorriam para as centelhas, parecendo chamar por elas...

- Não é uma canção minha: milhares de pessoas cantam-na, sem compreenderem que a infelicidade delas é uma salutar lição para o povo. Quantos seres esgotados ou mutilados pelo trabalho não morrem de fome..."


"A voz um pouco rouca de Sofia soava com doçura, uma voz que parecia vir do passado, que despertava esperanças, inspirava confiança; e aqueles homens escutavam em silêncio a história dos seus irmãos espirituais e olhavam o rosto magro e pálido da mulher. Uma luz cada vez mais viva iluminava a causa sagrada de todos os povos do mundo: a luta feroz pela liberdade. Cada um deles reencontrava as suas aspirações, os seus pensamentos, num passado longínquo, coberto por uma cortina escura e esangüentada, entre outros povos, desconhecidos; cada um deles unia-se de coração e espírito ao mundo, vislumbrando neste, amigos que, já há muito tempo, unânimes e firmes nos seus pensamentos, haviam decidido instaurar a verdade na Terra, santificado a sua decisão com incalculáveis sofrimentos, que tinham oferecido rios de sangue pelo triunfo de uma nova vida, feliz e radiosa. O sentimento de parentesco espiritual com eles desabrochava e crescia; era um coração novo que nascia da Terra, desejoso de tudo conhecer, de tudo congregar em si.

- Virá um dia em que os trabalhadores de todos os países erguerão a cabeça e dirão com firmeza: basta! Não aceitamos mais esta vida! - disse Sofia cheia de fé. - Então, ruirá o ilusório poder daqueles que são fortes apenas na sua ganância, a terra abrir-se-á sob os seus pés e eles não terão mais em que se apoiar..."


"- Nós próprios nos tornamos inconscientemente ferozes nesta vida feroz."

segunda-feira, 20 de julho de 2009

A individualidade moderna nos Grundrisse

Antônio José Lopes Alves
"Entretanto, não obstante seu caráter ineliminável de objetividade, a sociabilidade é, e continua a ser enquanto tal, produto dinâmico da interatividade histórica dos indivíduos. Por esta razão, a sociabilidade capitalista, caracterizada pelo estranhamento acima referido, não é uma forma necessariamente imutável e eterna, mas é também ela uma forma histórica em desaparição. Assim, diz Marx: 'Mas, manifestamente, este processo de inversão é tão-somente necessidade histórica, simples necessidade do desenvolvimento das forças produtivas de um determinado ponto de partida histórico, ou de uma base, mas de modo algum uma necessidade evanescente, e o resultado e o alvo imanentes deste processo são a superação desta base mesma, tanto quanto da forma deste processo'.
Enquanto necessidade evanescente, a forma histórica da sociabilidade do capital é compreendida por Marx ela também como mais uma forma histórica, e portanto superável. Modo societário este, evidentemente, tributário de todo o itinerário complexo e contraditório no qual a individualidade humana está vindo a tornar-se o que é. O processo histórico foi então, ao menos até a forma societária do capital, processo de estranhamento da individuação ou da individuação estranhada, dada a base, as formas primárias da propriedade privada, a partir da qual as comunidades primitivas se dissolveram. A superação da forma do capital significa, textualmente, a abolição daquela referida base. Como este processo poderia se dar? Quais seriam os elementos que tornariam possível uma forma societária de efetiva liberdade individual? E qual seria a natureza desta individualidade e das relações sociais nas quais ela se formaria?"

segunda-feira, 16 de março de 2009

Conquistar a Democracia pela Base

"A questão democrática, da perspectiva do trabalho, e mesmo do prisma de certo liberalismo menos acanhado e superado, não é puramente entendida como a questão relativa às formas de governo, ou melhor, aos modos pelos quais as classes dominantes exercem sua hegemonia. Destes pontos de vista a questão democrática não se esgota nos aparatos institucionais do poder, não é pensada simplesmente como a democracia política, mas implica necessariamente a democracia econômica, a democracia social, a democracia cultural etc. etc., isto é, implica todas as especificidades que compõem a totalidade da vida em sociedade.
Esta é verdadeiramente a questão democrática."


José Chasin

quarta-feira, 11 de março de 2009

Conquistar a Democracia pela Base

"Para a dialética a aparência é um aspecto do real, seu aspecto mais superficial e elementar, a aparência (o que aparece) traduz as relações mais simples do real, é a epiderme que se mostra e que, na maioria das vezes, está em contradição com a essência dos fenômenos. Se assim não fosse, Marx não teria observado que 'Toda ciência seria surpéflua se a aparência das coisas coincidisse diretamente com sua essência' (O Capital).
Impõe-se, consequentemente, ultrapassar o nível das aparências. É o que significa aprofundar dialéticamente a análise. É o que permitirá apreender concretamente a realidade, no processo do conjunto de seus múltiplos fenômenos, identificando, assim, seus fatores estruturais, responsáveis pelos significados decisivos do momento atual. E as próprias aparências poderão, então, revelar seus verdadeiros significados, permitindo, assim, que sejam objetivamente consideradas para efeitos programáticos."


José Chasin - 1977

sábado, 28 de fevereiro de 2009

O tempo - Substância do Capitalismo

"Para que a disciplina da empresa continue a pautar os comportamentos fora da empresa é necessário que o ócio dos trabalhadores, bem como as 24 horas dos desempregados, não sejam tempo livre, mas tempo controlado. É necessário que os pensamento não voem, mas sigam trilhas. Este resultado não se obtém apenas através da concentração das indústrias cinematográfica e televisiva num escasso número de mãos, com a conseqüente futilidade de conteúdo das diversões.
Hoje, não é apenas nos níveis econômico e ideológico que os capitalistas controlam os ócios, mas ainda no nível diretamente repressivo. Dentro das empresas, a eletrônica permitiu a fusão do processo de fiscalização com o de trabalho. Esta conjugação, inédita na história da humanidade, ampliou-se à sociedade em geral quando os bancos e as lojas começaram a sujeitar os clientes a formas de vigilância que até então haviam reservado para os assalariados. Depois, o fato de os computadores e outros instrumentos eletrônicos servirem tanto de meio de trabalho como de meio de divertimento permitiu a fiscalização automática dos ócios. Desde as virtuais às palpáveis, não existe hoje nenhuma modalidade urbana de diversão que não seja fiscalizada. Entre o mais intenso dos gestos de trabalho e o mais espreguiçado dos gestos de repouso existe um continnum preenchido pela vigilância eletrônica.
E como as firmas de segurança particulares ultrapassam em verbas e pessoal as polícias oficiais, e como são as próprias empresas quem registra, armazena e seleciona o vastíssimo rastro de informações que cada um de nós deixa ao longo dos nossos lazeres, cabe a elas, e não ao aparelho tradicional de Estado, formar a infra-estrutura repressiva.
Uma tradição muito difundida na extrema-esquerda considera a consciência política passível de ser obtida na passagem da luta contra os patrões para a luta contra os governantes. Mas será possível, nas condições atuais sustentar que o Estado clássico, enquanto órgão de decisões, prevalece sobre as empresas, enquanto instituições dotadas de soberania? Desde a década de 1960 que as movimentações dos trabalhadores ocorridas fora dos quadros sindicais e partidários vêm entendendo que o Estado clássico não é mais o alvo supremo das lutas e considerando a questão da democracia uma necessidade da estrutura interna das próprias organizações de luta. Sem a transformação das relações sociais de trabalho, de modo a pôr fim ao totalitarismo empresarial, é ilusório pretender que a liberdade possa vigorar em qualquer outro domínio."
João Bernardo

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

A Via Colonial : Do Capital Atrófico à Mundialização

"De sorte que, se no Brasil o capital é incompleto, o trabalho também não se integralizou; entretanto, se o primeiro é incompletável, o mesmo não ocorre com o segundo. Mas iniciar sua integralização exige a ultrapassagem do universo teórico do capital e a compreensão de que se trata, não de buscar finalizá-lo, em qualquer nível, mas de principiar sua desmontagem"

Lívia Cotrim